O Despertar

Olá pessoas! Passando pra deixar o primeiro de uma série de contos que estou escrevendo. Cada um é uma noite diferente vivida por uma vampira que despertou nesses dias conturbados ^^ Me inspirei na fabulosa obra de Anne Rice para escrever.

Hope you like it o/

 

Há um tempo na existência de todo imortal no qual o cansaço bate e a única coisa na qual conseguimos pensar é no “não-ser”. Quando aconteceu comigo eu busquei um cemitério de uma pequena cidade como refúgio, violei um mausoléu antigo de uma família outrora influente, mas então esquecida, e deitei-me inerte em uma das sepulturas. Perdi a noção do tempo, imersa na letargia. Por fim, acabei cansando disso também e ressurgindo dos mortos. Não sabia quanto tempo passara mergulhada na escuridão, mas percebi que foi tempo suficiente para que minha roupa se desfizesse.

Então lá estava eu, um vulto branco, nua, brilhando palidamente ao luar. Inspirei profundamente, tentando sentir a proximidade de alguém, mas as redondezas estavam por demais quietas. Saí a vagar pelas ruelas da pequena cidade, logo percebendo que ela mudara absurdamente. “Por quanto tempo fiquei alheia ao mundo?”

As pequenas casas de madeira agora eram feitas de materiais mais resistentes, muitas árvores não estavam mais onde as tinha visto pela última vez. Nem as estrelas do céu. Por um segundo fiquei perplexa, mas logo a perplexidade deu lugar à curiosidade, queria saber o quanto tudo tinha mudado. “Talvez não tenha mudado tanto para aceitarem alguém andando nu na rua”, pensei quando dois jovens fizeram piadinhas sobre minha situação. Estava na hora de conferir se meus velhos poderes tinham ou não enferrujado.

Sorri para os dois, encorajando uma aproximação. Os dois se entreolharam, riram e foram chegando mais perto. Suas mentes tão abertas, os pensamentos se projetando nitidamente dentro da minha cabeça. “Hoje tirei a sorte grande, os outros caras não vão acreditar nisso! Uma louca peladinha na rua, e dando mole pra gente!”, o outro pensava se teriam dinheiro suficiente para bancar a diversão que a mulher propunha. “Essa não parece ser qualquer uma. Tem alguma coisa diferente nela, além do mais nunca a vi por esse lado da cidade. Deve ser da cidade vizinha, dizem que as prostitutas de lá são louquinhas, mas caras pra caralho”.

Os rapazes trajavam roupas tão estranhas para ela. Nenhum com chapéu, as luvas pretas estavam cortadas e as pontas dos dedos de fora. Nada de gravatas, coletes, apenas casacos gigantescos e calças de um material estranho, parecido com a lona que os antigos operários usavam nos seus macacões. Um azar não ter encontrado uma moça, por hora teria de se contentar com as roupas deles mesmo. Quando os dois chegaram bem perto dela, ela confundiu suas mentes e os atraiu para um beco escuro, e o trio se atacou quase que mutuamente. Ambos os rapazes tão cheios de desejo, assim como ela, mas ansiavam por coisas diferentes. Estavam tão fora de si que nem chegaram a reparar na rigidez e frieza da pele branca, já ela estava completamente ciente da carne tenra e do sangue quentinho dos dois. Não conteve o impulso de rir quando empurrou a cabeça do primeiro contra a parede, os ossos do pescoço quebrando, uma fragilidade absurda, os olhos do outro se arregalando, o grito suspenso para sempre, interrompido por pares de presas cravados na garganta.

Um pouco melhor depois da refeição frugal, vestida com roupas de garoto, saiu a vagar pelas ruas da cidade. Antes a conhecia como a palma da mão, mas agora era tudo tão diferente. Por sorte algumas coisas não mudam, e ela reconheceu ruas principais, os mesmos nomes. Tomou a avenida central rumo ao norte, precisava conferir se o velho casarão estava de pé, uma construção anciã, como uma sentinela guardando o passado no meio daquele mar de prédios altos, cinzas e frios, sem personalidade, pensava ela. Chegou onde pretendia e, suspirando aliviada, percebeu que ainda estava lá. Abandonado, caindo aos pedaços, em uma zona agora marginal. Pulou o portão de ferro alto, empurrou a porta com cuidado, tendo a impressão de que qualquer movimento descuidado colocaria a casa abaixo. Tantas lembranças naquela sala antiga, as cortinas quase se desfazendo, se fechasse os olhos ainda conseguia ver o ondular das mesmas, embaladas pela brisa que vinha do mar. Foi ao porão e achou seu velho sepulcro, onde costumava se abrigar da luz do sol.

Ficava imaginando se todo o ouro que havia guardado com seu caixão valia algo nesse mundo estranho. Nessas horas o sensato é procurar pelos covens vampíricos, eles saberiam informa-la melhor sobre o que fazer. Enfiou as barras douradas dentro dos bolsos do casaco e seguiu seu caminho para fazer o que menos gostava, mas certos rituais, por mais infelizes e sem espírito que sejam, ainda se fazem necessários. Os vampiros não gostam muito de quebrar suas tradições, e atribuem a sobrevivência milenar da linhagem a esse fato. Não que ela se apegasse a isso, mas ser caçada por desobediência não parecia atrativo, não agora, não com tanto a descobrir. Alguns jovens passavam por ela, com coisinhas nos ouvidos, pensamentos cheios de sons barulhentos, e ela logo ligou essas coisinhas à música, ficou pensando se a música passava pelos fiozinhos que saíam das orelhas e iam aos bolsos dos casacos. Não pode deixar de sorrir de si mesma. “Tanta ignorância, tanta curiosidade!”

Chegou ao lugar onde o coven se reunia. Outro casarão antigo, se as coisas ainda funcionavam como antes, ele pertencia a uma família humana que o cedia gentilmente ao líder. Era uma troca equivalente, muitos favores pagavam o aluguel da construção, como assassinatos, roubos, coisas do gênero. As portas estão sempre abertas para imortais, e por algum motivo, talvez por instinto, mortais se mantêm longe de lá. Ela empurrou a porta e entrou no grande salão, iluminado pela grandiosa lareira e velas que exalavam um perfume enjoativo. Muitas cabeças se viraram para contemplar o recém chegado, e o líder do coven abriu um sorriso malicioso. “Minha querida, eu sabia que voltaria para mim!”

Ela não conseguiu disfarçar, soltou uma gargalhada cínica e seguiu para o escritório sem que ninguém permitisse, e foi seguida de perto pelo homem do sorriso. Ele fechou a porta, se escorou e suspirou, passando a mão pelos cabelos compridos.

– Depois de tanto tempo você volta, como se nada tivesse acontecido! Eu me preocupei com você. E é verdade, mesmo que não acredite – acrescentou ao ver a face incrédula e zombeteira virando-se para encará-lo.

– Não interessa o que sente ou deixa de sentir. Eu só preciso de informações para me situar nesse mundo novo. Coisas mudaram e eu não quero ficar para trás. Você agiliza essas coisas mais práticas, troca meu ouro pela moeda que estão usando, me indica o que estão fazendo por hora, depois que eu souber o que preciso eu volto para as sombras. E você fica por um bom tempo sem ouvir falar de mim.

– Não acho que eu queira realmente ficar sem notícias suas. Além do mais, sendo você como é, garanto, melhor, aposto que não fica um mês sem se meter em confusão. Minha querida, reconsidere meu pedido e junte-se ao coven! É tão mais prático, seguro!

– Tão mais entediante…

Ele suspirou novamente. Sabia que a resposta seria aquela, mas não podia deixar de tentar mais uma vez. Tentaria quantas vezes a eternidade permitisse, tinha a remota esperança que um dia, com alguns séculos a mais, ela deixasse de ser tão inconseqüente.

– Certo, mais um vez me rendo aos seus pedidos. Mas peço que passe essa noite conosco, podemos contar algumas histórias do que aconteceu durante esse tempo em que esteve ausente.

– Sei de uma maneira mais rápida! – disse bruscamente, se aproximando do vampiro escorado na porta. Fixou os olhos nos dele, enquanto sua mão esquerda puxava os cabelos da nuca, forçando a cabeça para trás. Quando as presas perfuraram o pescoço seu pescoço, ele não conseguiu reprimir um gemido, e enquanto ela sugava seu sangue com veemência, ele passeava as mãos pelo corpo dela. Mas ela logo o soltou e se afastou novamente, indo até a janela, onde ficou a observar a noite, assimilando o que o sangue dele tinha revelado, todas as lembranças que ele guardara durante os 200 anos de sua ausência.

Obter conhecimentos dos fatos através do sangue alheio nem sempre é agradável, pois o que se vê são as impressões íntimas de quem vivenciou o momento. Ela podia ter continuado a beber o sangue dele, mas quando  apareceu nas memórias se sentiu perturbada. Odiava saber que ele a tinha em tão elevada estima, pois jamais conseguiria retribuir da mesma maneira. Nenhuma palavra foi dita depois daquilo. Ele saiu do escritório e um tempo depois uma empregada foi chamá-la para mostrar seus aposentos.

O dia já estava quase raiando, e quando os primeiros raios de sol surgiram no horizonte ela fechou os olhos no seu quarto, protegida, sorrindo suavemente enquanto pensava no quão excitantes seriam suas novas experiências.

Buenas, pessoas, por hoje é isso. Ja na!

 

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3 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Trackback: O Despertar: Um conto sobre vampiros! « 100 fresKura
  2. Beki Girl
    jan 07, 2011 @ 00:37:10

    Há bacana, eu devaneadora e você nos devaneios. Achei legal a comparação… Adoro histórias da Anne Rice, estou lendo a coleção dela, ou seja me deliciando, tem um ótimo gosto. E adorei muito o texto, continue nesse caminho, irás longe. Espero poder acompanhar mais.
    Beijos.

    Responder

    • hinasama
      jan 07, 2011 @ 01:27:35

      Comprei algumas crônicas vampirescas, também estou me divertindo mt lendo ^^ Anne Rice é mestra do gótico contemporâneo, ela consegue passar um turbilhão de emoções aos leitores. Que bom que gostou do texto, qd atualizar te digo…

      Responder

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