Medo da chuva

Deitada em uma cama de um desconhecido qualquer em uma tarde de domingo. Assim eu me encontrava. O cheiro da bebida barata aumentando minha ânsia, enquanto eu temia abrir os olhos e contemplar mais uma tentativa frustrada de fuga. “Parabéns, mocinha!”, eu ouvia minha consciência falando zombeteiramente dentro da minha cabeça. Era tudo o que eu não precisava. Por fim tomo coragem e abro os olhos. Minha roupa jogada pelo chão do quarto, as peças formando uma trilha da porta até a cama. Vou juntando uma a uma e vestindo com dificuldade. A bebida ainda age e eu perco o equilíbrio, caindo no chão e acordando o rapaz, que fica insistindo ser cedo demais para eu ir. Não dou ouvidos aos seus protestos, amarro os tênis e saio.

Vento e muitas nuvens no céu. Vai chover e eu não quero voltar pra casa. Não agora. Saio sem rumo pelas ruas da cidade esperando encontrar algo que me cause surpresa. Não suporto mais esses dias iguais, os mesmos sorrisos dissimulados, as mesmas máscaras. Escoro-me na parede de um prédio enquanto vejo as pessoas correndo para escapar da chuva iminente. As mulheres preocupadas com seus cabelos, os homens com cara de tédio enquanto as puxam pela mão. Correm sem olhar para os lados, sem perceber a existência dos outros. E eu lá, escorada na parede, ainda meio bêbada, a me perguntar o que se passava por cada mente.

A chuva cai, por fim, e eu resolvi seguir para os lados mais desertos. Vou caminhando lentamente, e a cada passo a sensação de vazio aumenta. E o nó na garganta. Veja bem, eu ainda sinto! Não sei bem o quê, mas eu sinto. Sinto o nada dentro de mim, o vácuo. Meu peito é um buraco negro sugando estrelas. Há cavaleiros nas ameias espreitando a escuridão. O que pode sair dali que represente perigo? Eu sou um perigo para mim. Busco em outros corpos me encontrar, sanar o tédio que enche os meus dias. Eu cansei da minha vida. Mas não tenho iniciativa pra terminar de uma vez com ela. No fim das contas eu vou ser só mais uma no meio da multidão e vão me chamar de “moça” porque não sabem o meu nome.

Os pingos de chuva deixam as lágrimas imperceptíveis. Mas não há com o que se preocupar, não passa ninguém por aqui mesmo, e ninguém iria se importar com uma maluca que se dispõe a caminhar por aí durante um temporal. Afundo cada vez mais em mim. Cansei. Eu cansei disso, cansei de tudo. Meu deus, eu cansei de ser eu.  A dor dos joelhos se chocando contra a pedra da calçada. Estou lá, ajoelhada na rua com a chuva escorrendo pelo corpo. Eu sinto! Ainda tenho essa capacidade. Infelizmente? Num súbito acesso de raiva eu começo a tirar o casaco que se cola ao meu corpo, jogo longe, não quero nada se prendendo a mim, nada! Não quero mais. Puxo os cabelos, me abraço e cravo as unhas nas costas. Dor. Eu ainda sinto. Começo a desejar desesperadamente que a água que escorre pelo meu corpo leve para a sarjeta toda a dor. Chove dentro de mim. E as poças que ficarem por lá não terão o Sol para secá-las e eu vou apodrecer. Existe algo que já não esteja podre?

Fico lembrando das outras noites da minha vida, tudo tão vazio e sem sentido. Não tenho mais capacidade de sorrir. Noites cheias de fugas, de sexo por sexo, levantava das camas e me vestia. Fugia. E ficava com o cheiro da luxúria alheia em mim. Eu tenho nojo do que eu me tornei. Uma cria do comum, que se contenta com o pouco que tem. Eu odeio tanto meu conformismo, mas eu não faço nada para mudar. Não faço nada. Só me perco mais no chiqueiro que esse mundo virou. Chafurdando na lama e vivendo de restos. Eu tenho nojo de mim.

Vislumbro toda essa geração a caminhar cegamente para o abismo e cair no limbo. E lá passarão a eternidade do mesmo jeito que passaram a vida, não-sendo. Maldita seja a geração pós-moderna, fantasmas que perambulam pelo mundo dos vivos sem saber que já morreram, pensando ser capazes de tocar nas coisas e quando tentam veem com frustação que seus membros atravessam o sólido e não há nada que se possa fazer a respeito. Falam, mas não são ouvidos. Agonizam, tentando em vão serem percebidos, prometeram-me quinze minutos de fama, como eu fico?

Exércitos de seres que tentam futilmente ter destaque nos seus grupos, mas caem na vala do comum. Qual é o sentido da vida mesmo? Talvez a morte seja o sentido da vida. Eu chego em casa encharcada, pensando nessas coisas todas. Tomo um banho quente e vou para a sala. Ligo a televisão e vejo padrões sendo impostos. Mas eu não desligo. Nem troco de canal. Minha mãe em silêncio sentou ao meu lado. Eu deitei minha cabeça no seu colo e ela começou a mexer no meu cabelo. Ignorou as marcas roxas do meu pescoço. Ignorou os arranhões nos meus braços. Por vezes eu queria que ela gritasse comigo, me pegasse pelos ombros e me sacudisse. Mas ela acredita em mim. Ela ainda perde seu tempo acreditando em mim.

E passei a lembrar da minha infância e dos sonhos que eu tinha. Minha mãe sempre acreditou em mim. “Mãe, quando eu crescer eu quero ser atriz!”, e ela sorria com ternura e dizia que tinha certeza que eu seria a melhor. Eu mudava as profissões conforme o tempo passava, e ela continuava a dizer que tinha certeza que eu seria a melhor. Eu não entendo esse amor maternal. Eu não entendo o amor. Era pra ser algo bom, não era? Mas por que dói? Machuca. Sempre. “Ninguém nesse mundo é feliz tendo amado uma vez”. Eu fico cantarolando mentalmente até dormir no colo na minha mãe, que ainda me fita com seus olhos cheios de candura.


Um desabafo. Talvez um lamento por todas as existências sem significado. Várias pessoas em uma só personagem. “Eu perdi o meu medo, o meu medo da chuva…”. Talvez não faça sentido pra vocês. E caso não faça, eu desejo uma boa queda daquele abismo supracitado… E quem tem olhos que veja, quem tem ouvidos, ouça, e quem tem boca, fale.

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