I’ve finally opened my eyes

Hoje, por motivos aleatórios, lembrei de algo que me deixou pensativa.

Eu nunca fui uma criança magra. Mas não é a questão. Quando eu tinha meus cinco anos, minha mãe me ensinou a rezar. E eu rezava todas as noites. Primeiro o pai nosso, depois algo que eu quisesse acrescentar. E hoje eu lembrei das vezes em que, no silêncio do meu quarto e na inocência dos meus cinco anos, pedia com todo o fervor do meu coração pra ter 30 quilos. Queria ser mais magra e pedia isso encarecidamente todos os dias. Bom, preciso de um desconto, afinal eu tinha cinco anos. Parei pra pensar com certa consternação a respeito. Tipo, quais eram os motivos que me levavam a isso? Acho que eu só queria ser normal. Ou melhor, só queria ser como todas as outras crianças. E, pra piorar a situação, eu sempre fui a mais alta. Mesmo sendo dois anos mais nova que a turma, era sempre a maior, em todos os sentidos espaciais. Deve ser por isso que quando dizem “Ai, mas tu não é gorda, tu é grande” eu fico com tanto ódio. Bem, como toda a garota, eu queria ser bailarina. E um dia minha bisavó foi ensinar pliês para minha prima e eu. Mas logo constatou que eu não servia pra coisa: “Você não tem delicadeza o suficiente”. E minha prima, com sua perfeição de cabelos loiros e olhos azuis, sorria enquanto fazia os exercícios com desenvoltura. Acho que desde cedo eu aprendi a esconder minha decepção. Aprendi a respirar fundo e sorrir, engolindo as coisas que me diziam. Mesmo que fosse verdade, né. Existem maneiras mais sutis de se falar as coisas.

E o tempo passou e eu cheguei na maldita adolescência. Continuei sendo a mais alta e a mais gorda de todas as turmas do ensino médio. E com os meus 13 anos eu me olhava no espelho e só sentia nojo. Nojo de não ser como todo mundo. E depois tentando ser o mais diferente possível. Ah, as contradições juvenis. Então eu descoloria meu All Star, cortava minhas calças, descobri o lápis de olho preto, o rock e depois o heavy metal. E com o passar do tempo descobri o doom metal e as vertentes depressivas do black. E cada vez mais eu me odiava. Auto-mutilação e tentativas de suicídio. Vivia escrevendo coisas tensas. A verdade é que nunca me aceitei. E mesmo tentando ser diferente, no íntimo do meu ser, eu só queria ser como o que as pessoas consideram bonito. Pode parecer que não, mas eu sou uma pessoa fechada: o que realmente me chateia nunca é posto pra fora. Tenho uma dificuldade enorme de expor meus sentimentos. Vai saber o por quê, mas é assim. Então, sendo as coisas como são, nunca consegui falar pra minha mãe ou pra qualquer amigo o que eu realmente sentia. Mas chegou um dia que eu não aguentei mais e surtei, chorando horas a fio, até ir no médico e suplicar por antidepressivos. Não sei se foi a melhor escolha. Fiquei, como já devo ter dito milhares de outras vezes, letárgica. E blá blá blá. Então ano passado eu perdi muito peso. Fiquei cadavérica. E ainda assim, continuava insatisfeita. Agora eu ganhei alguns quilos e comecei a ficar ainda mais paranoica. Mesmo que as pessoas digam que eu estou bem, ainda assim não consigo aceitar isso. Resolvi começar a trabalhar uma imagem mais positiva de mim mesma. Um dia um amigo meu me disse que a imagem que eu tinha construído de mim estava me cegando e me impedindo de ver os meus pontos positivos. Hoje eu dou razão a ele. Porque é impossível alguém não ter pelo menos um lado bom. Estou tentando encontrar alguns em mim. Acho que já é um grande avanço não me encarar com desprezo quando me olho no espelho. Até já consigo esboçar um sorriso 🙂 Sei que há dias em que todo meu esforço parece ser em vão, mas dessa vez eu não quero desistir. Não posso desistir. Ser abandonada não é nada legal, como posso fazer isso comigo? Não mereço ficar me martirizando e assumindo a culpa de tudo. Pedindo desculpas por ser quem eu sou. Onde já se viu tal coisa??? E é assim, degrau a degrau, que eu vou tentando aceitar e entender quem eu sou, tentando assimilar que eu não preciso agradar todo mundo e me colocar em último lugar sempre. E que eu sou, sim, uma mulher bonita e interessante^^ Eu gostaria de ter a oportunidade de falar com  quem se sente agora como eu me sentia, e fazer com que eles enxergassem as pessoas maravilhosas que são. Mas isso é um processo que começa de dentro pra fora.

Tell me that you’ll open your eyes
 Get up, get out, get away from these liars
´Cause they don’t get your soul or your fire
Take my hand, knot your fingers through mine
And we’ll walk from this dark room for the last time
Image
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2 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Sonia
    abr 29, 2012 @ 16:04:53

    Pois é minha filha… e eu sempre te achei a melhor das pessoas, mesmo quando não te falava… sempre responsável…amiga…boa filha… e linda…Não precisa provar nada para ninguém…’TU ÉS MARAVILHOSA”… TE AMO MUITO!!!

    Responder

  2. henriquemayer
    abr 30, 2012 @ 13:08:25

    A Carol e as surpresas dela, sempre fazendo a gente rever os momentos que se passaram, como se fosse um livro do Stephen King, algumas coisas só se revelam depois de muito tempo e revisar a história mentalmente é quase que obrigatório.
    Também me senti assim por um tempo prima, mas aceitei que não vou ser uma fotocópia de nenhum estereótipo (xerox da modinha? Tô de fora dessa).
    Fora isso, faço das palavras da dinda, as minhas.

    Responder

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