A Guirlanda de Julie

Por Sérgio Capparelli

Julie afoga sentimentos logo que nascem, como gatinhos.

Ela diz que não pode vê-los miando pelos cantos

sujando a superfície polida de sua lucidez, subindo nos telhados e abrindo as lucarnas,

não, Julie não gosta, gatos são desalinhados,

não lambem os donos e levam o coração para uma zona de sombras.

Antes era mais fácil, bastava pegar um saco de aniagem

desses de farinha de trigo argentina marca Pajaro Azul,

botava os filhotes dentro, costurava a boca com linha de sapateiro

e ia para o rio com os lábios sangrando.

Com o tempo ficou mais complicado

os sacos de aniagem estão vasqueiros

e os panos de prato, bordados com ponto de cruz, são sem serventia.

Gatos chegam em silêncio, entram sem cerimônia,

instalam-se debaixo das camas, adormecem no borralho

ou se aninham naquele canto da dor mais doída.

Mas Julie não desanima, bate no avental para soltar o pó

e vai para a cidade com os tamancos trocados,

comovendo-se com os anúncios de uma calcinha de neon,

com os passantes anônimos, com as vitrines,

até voltar tarde e de mãos vazias,

por que é que eu vim aqui mesmo?

Agora falam da canalização do Vesúvio

E os conjuntos habitacionais até já ocuparam terrenos baldios

Desfazer-se dos filhotes pelos velhos métodos, dá calafrios.

Outro dia jogava no rio uma ninhada nova e foi advertida pelo fiscal de limpeza urbana.

Para onde vai com seu cortejo?

E os gritos em suspensão das pedras que balizam a queda?

Que canções aprenderam as plantas ribeirinhas?

Beijar as magnólias até que solucem?

Julie se faz essas perguntas na volta pra casa,

desfazendo a costura dos lábios com a ponta da agulha.

Mas se acha uma mulher, Julie,

na compulsão de ser correta,

na gesticulação compulsiva da memória

e na domesticação dos desejos.

Ela é uma mulher, Julie,

cheia de defesas e álibis,

uma mulher, Julie.

Quando falo em Julie,

conhecidos meus dão de ombros

ou perguntam se não lhe dou conselhos,

explico que também vivo numa zona de sombras

e meu peito é toda uma ninhada nova,

solta na correnteza.

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